Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!

Para sempre seja louvado!

“A oração, fazendo o nosso espírito penetrar na plena luz da divindade e expondo a nossa vontade abertamente aos ardores do amor divino, é o meio mais eficaz de dissipar as trevas de erros e ignorância que obscurecem a nossa mente e de purificar o nosso coração de todos os seus afetos desordenados.”
(São Francisco de Sales)

Sendo assim, através da oração podemos nos purificar de todo e qualquer mal que queira tirar a nossa alma de Deus.

Meditemos nestes ensinamentos de São Francisco de Sales sobre a importância de purificar a nossa alma, de prepará-la para o encontro com o seu amado Deus, retirados de um livro muito importante a nossa espiritualidade: Filotéia ou Introdução à vida devota”.


NECESSIDADE DE PURIFICAR A ALMA DE TODOS OS AFETOS AO PECADO VENIAL

Capítulo XXII

A medida que o dia se vai clareando, nós vamos vendo melhor num espelho as nódoas do nosso rosto; de modo semelhante, à proporção que o Espírito Santo nos comunica maiores luzes interiores, nós vamos descobrindo mais distinta e evidentemente os pecados, as imperfeições, as inclinações que se podem opor de qualquer modo à devoção; e é muito de notar que essas luzes que esclarecem o nosso espírito acerca de nossas faltas excitam também no nosso coração um desejo ardente de corrigi-las.

Deste modo, Filotéia, em tua alma, embora já purificada dos pecados mortais e das afeições que levam a cometê-los, encontrarás ainda um grande número de disposições más, que a inclinam ao pecado venial; não digo que descobrirás aí muitos pecados veniais, mas, sim, que a encontrarás cheia de afeições más, que são as fontes dos pecados veniais. Ora, isso são coisas bem diversas: mentir, por exemplo, habitualmente e com gosto é muito diferente do que mentir uma ou duas vezes por brincadeira. Não podemos preservar-nos completamente de todo pecado venial de tal sorte que nos conservemos por muito tempo nesta perfeita pureza da alma; o que com a graça de Deus podemos é destruir o afeto ao pecado venial, e para isso é que nos devemos esforçar.

Estabelecidas estas pressuposições, digo que é necessário aspirar este segundo grau de pureza da alma, que consiste em não fomentar voluntariamente em nós nenhuma afeição má ao pecado venial, qualquer que seja; seria, pois, uma grande infidelidade e mui culpável indolência conservar em nós consciente e habitualmente uma disposição tão má como é a de desagradar a Deus.

Com efeito, todo pecado venial, por menor que seja, desagrada a Deus, conquanto não lhe desagrade a ponto de lançar sobre quem o comete a Sua maldição eterna; se, pois, o pecado venial Lhe desagrada, certamente a afeição habitual que se tem ao pecado venial vem a ser uma disposição habitual do nosso espírito e coração de desagradar à Majestade Divina. E seria possível que uma alma que se reconciliou com Deus queira não só lhe desagradar, mas até ter gosto nesse desagrado? Todos os afetos desregrados, Filotéia, são tão diretamente opostos à devoção como a afeição ao pecado mortal o é à caridade: eles enfraquecem o espírito, impedem as consolações divinas, abrem caminho às tentações e, mesmo que não tragam a morte à alma, causam-lhe todavia graves enfermidades.

As moscas que caem mortas num bálsamo precioso — diz o sábio — deitam a perder toda a suavidade de seu odor e toda a sua intensidade. Quer ele dizer que as moscas que aí pousam só de leve, e sugam apenas um pouco da superfície, não estragam todo o bálsamo; mas que aquelas que aí morrem o corrompem inteiramente. Do mesmo modo, os pecados veniais que se cometem de tempos em tempos pouco danificam a devoção; ao contrário, destroem-na por completo, se formam na alma um hábito vicioso.

As aranhas não matam as abelhas, mas estragam-lhes o mel e, se acham uma colmeia, de tal modo a embaraçam com os fios de sua teia que tornam impossível às abelhas a continuação de seu trabalho. Assim, os pecados veniais não matam a nossa alma, mas estorvam a devoção e, a quem os comete com uma inclinação habitual, embaraçam a alma com uma espécie de hábito vicioso e de disposições más, que a impedem de agir com aquela caridade ardente em que consiste a devoção verdadeira.

Não é uma coisa grave, Filotéia, pregar uma mentirazinha, transgredir um pouco a ordem (quer por palavras, quer por ações), não resguardar os olhos, quanto a vistas puramente naturais e curiosas, comprazer-se uma vez em vestidos de vaidade, visitar um dia uma sala de dança ou de jogos, donde o coração sairá um tanto ferido — tudo isso, digo eu, não será uma coisa grave, nem de maior reparo, uma vez que se preste atenção a que o coração não se deixe dominar por certos pendores e apegos que podia tomar para estas coisas, à semelhança das abelhas, que se esforçam por expulsar as aranhas que lhes querem estragar o mel. Mas isso acontece muitas vezes e se, como de costume, o coração se inclina e apega a estas coisas, bem depressa há de se perder a suavidade da devoção e toda a devoção mesmo. Ainda uma vez torno a dizer: será ditado pelo bom-senso que uma alma generosa tenha gosto em desagradar a Deus e se afeiçoe a querer sempre aquilo que sabe lhe ser tão desagradável?

NECESSIDADE DE PURIFICAR A ALMA DAS COISAS INÚTEIS E PERIGOSAS

Capítulo XXIII

Os jogos, os bailes, os festins, os teatros e tudo aquilo, enfim, que se pode chamar pompa do século, de si mesmos e de sua natureza não são de modo algum coisas más, mas sim indiferentes, que podem ser usadas tanto bem como mal. Contudo, sempre são coisas perigosas e mais ainda o é afeiçoar-se a elas. É por esta razão que te digo, Filotéia, que, embora não seja pecado um jogo comedido, uma dança modesta, vestir-se rica e elegantemente, sem ares de sensualidade, um teatro honesto tanto quanto a composição como quanto à representação, um bom jantar, sem intemperança, contudo, a afeição que se poderia adquirir a estas coisas seria inteiramente contrária a devoção, muito nociva a alma e de grande perigo para a salvação. Ah! Que grande perda encher o coração de tantas inclinações vãs e loucas, que o tornam insensível para as impressões da graça e de tal modo tomam posse dele que não lhe deixam nem energia nem gosto para as coisas sérias e santas!

Exatamente por isso no Antigo Testamento os nazarenos se abstinham não só de tudo o que podia embriagar, mas até das uvas e do agraço; não é que pensassem que uma uva ou outra os pudesse embriagar, mas assim faziam porque tinham medo de que, se comessem o agraço, sentissem o desejo das uvas e, se chupassem as uvas, fossem tentados a beber o vinho. Não digo, pois, que em ocasião alguma possamos usar de coisas perigosas, mas digo somente que nunca poderemos apegar nessas coisas o coração sem danos da devoção. Os veados, se engordam muito, retiram-se para as suas moitas, porque sentem que sua gordura lhes faria perder a agilidade, que é sua defesa, quando são perseguidos pelos caçadores; deste modo o homem, sobrecarregando o seu coração com estes afetos inúteis, supérfluos e perigosos, perde as boas disposições, necessárias para correr com ardor e facilidade pelas veredas da devoção. Os meninos correm todos os dias, até não poderem mais, atrás das borboletas, e ninguém acha nisso alguma coisa de inconveniente, porque são meninos; mas não é uma coisa ridícula e ao mesmo tempo deplorável ver homens racionais se darem afoitamente a bagatelas tão inúteis como aquelas de que falamos e que, além disso, os fazem correr perigo de pecar e se perder? Por isso, Filotéia, e porque a tua salvação me é tão cara, eu te declaro a necessidade de libertares o teu coração de todas estas inclinações; pois, ainda que os teus atos particulares não sejam sempre contrários a devoção, contudo, o afeiçoar-se e apegar-se a estas coisas lhe causam mui grandes danos.

NECESSIDADE DE PURIFICAR A ALMA MESMO DAS IMPERFEIÇÕES NATURAIS

Capítulo XXIV

Santa Paula (347 d.C. – 404 d.C)

Possuímos ainda, Filotéia, algumas imperfeições naturais, que, embora se originem dos próprios pecados, não são pecados mortais nem veniais: chamam-se imperfeições, e os atos resultantes daí tem o nome de defeitos ou faltas. Santa Paula, por exemplo, como nos conta São Jerônimo, era de natureza tão dada à melancolia, que, a morte de seu marido e seus filhos, pensava morrer de tristeza.

Era isso uma grande imperfeição, mas não um pecado, porque era contra a sua vontade. Existem algumas pessoas que são ele um espírito leviano e outras de um caráter ríspido; muitas há de um ânimo indócil e difícil de aceder aos conselhos e as palavras de amigos; outras que tem a bílis fácil de inflamar-se, e muitas outras que possuem um coração por demais terno e suscetível a amizades humanas. Numa palavra: quase que não existe pessoa alguma em que não se note uma imperfeição semelhante.

Ora, embora essas imperfeições sejam naturais, podem, entretanto, ser corrigidas e moderadas, procurando-se adquirir as perfeições contrárias; podemos mesmo acabar inteiramente com elas; e digo-te, Filotéia, que deves chegar a este ponto. Achou-se meio de converter as amendoeiras azedas em doces, simplesmente furando-as junto ao pé, para que saia o suco amargo.

Por que, portanto, não podemos nós nos livrar de nossas más inclinações, retendo unicamente o que tem de bom para as tornar disposições favoráveis a prática das virtudes? Assim como não há uma natureza tão boa que não possa ser corrompida por hábitos viciosos, assim também não existe um caráter tão mau que não se possa domar e até mudar inteiramente, mediante um esforço constante e pela graça de Deus.

Vou te dar, pois, os avisos e te propor os exercícios que julgo mais necessários para livrar a tua alma de todas as más inclinações ao pecado venial, de todos os apegos a coisas inúteis e perigosas e de todas as imperfeições naturais. Com isso a tua alma estará também mais defendida contra o pecado mortal. Que Deus te dê a sua graça para os pores em prática!

(SALES, São Francisco de. Filoteia ou a Introdução à Vida Devota. Editora Vozes, 8ª ed., 1958)

1 comentário

  1. Deus me fez sentir novamente uma grande vontade de ascender na busca da perfeição, que embora sempre estivesse presente em minha alma, os acontecimentos e trabalhos tem obscurecido e manchado, atingindo a minha alma, e como diz o Santo, as manchas nos enfraquecem principalmente na vontade e nos levam a ir perdendo aquela força de vencer as pequenas imperfeições, mas a lembrança pela pregação dele, reergueu minha alma e estou sentindo uma grande vontade de buscar a perfeição e ser santo como Deus pede por meio dessa leitura maravilhosa. Ele abre nossos olhos aos descuidos com as pequenas faltas, para não nos acostumarmos com elas e ao contrário, nos ajuda a eliminá-las de nossa alma em busca da perfeição e santidade requeridas para nossa salvação e dos outros e exigidas por Deus. Obrigado!

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